sábado, 5 de fevereiro de 2011

"Vila, eu te amo!"


Nesta noite presenciamos um dos maiores deboches da história do futebol mundial de uma torcida para com a outra frente a frente: surpreendendo todos os que estavam no Estádio Serra Dourada, a torcida do Atlético Goianiense começou a gritar: "Vila, eu te amo!" Neste início de 2011 se completam 8 anos que o Vila Nova não vence o Atlético Goianiense por nenhuma competição: Campeonatos Goiano e Brasilieiro das séries B e C. Gritos de "1, 2, 3, o Vila é freguês" foram recorrentes por todo este jogo do 1º turno do Campeonato Goiano, em que o Atlético venceu por 2 a 1. Daí o grito oriundo da torcida do Atlético, agradecendo a performance inferior do Vila nos jogos entre ambos nestes últimos tempos. A torcida do Vila, a mais apaixonada, reclamadora, xingadora e brigadora do futebol goiano, surpreendeu-se com o cântico entoado pela torcida adversária no estádio, em que foi repetida uma das frases mais cantadas pela própria torcida.

Superficialmente, a história do futebol goiano pode resumir-se da seguinte maneira: na primeira metade do século 20 eram Goiânia e Atlético Goianiense as duas forças do Estado, principalmente por serem os únicos times 'estáveis', localizados na Capital e mantendo unidade de sócios e de denominação. Em 1943 foram fundados Vila Nova e Goiás, sendo que o Vila passou a dominar o futebol no Estado, fazendo frente a Goiânia e Atlético Goianiense. O Goiás permaneceu pelos primeiros 20 anos de vida como clube pequeno, conhecido como "Clube dos 33" – brincadeira de que seria esse o número de torcedores que o clube tinha, além da fama de impopular e de perdedor. Alçado ao campeonato nacional por influência política junto à Arena ("aonde a ditadura vai mal, um time no nacional"), o Goiás cresceu a partir dos anos 1970, tomando a vaga que seria naturalmente do Vila Nova, time de maior torcida no Estado.
Nos anos 1980 se iniciou a decadência do Goiânia e o crescimento do Goiás em âmbito nacional. Convidado pelo Clube dos 13 para a Copa União de 1987, torneio que marcou a reorganização dos campeonatos nacionais e início da "era do marketing" do futebol brasileiro, o Goiás se consolidou nacionalmente, revelando diversos jogadores, conquistando sucessivos títulos goianos e frequentando a 2ª divisão por apenas 2 anos de 1987 a 2010 (conseguindo voltar para a divisão de elite no ano seguinte na duas vezes). Por ser o time do Estado a enfrentar os grandes do País, criou-se uma identificação com parte da população, e hoje o Goiás detém a maior torcida entre os goianos. A torcida do Vila Nova é a 2ª maior e a do Atlético é bem menor que as outras, comparece menos ao estádio e tende a crescer somente agora, com o sucesso do clube nos últimos anos. Geralmente se encontram entre os torcedores do Atlético pessoas mais velhas, residentes do Setores Campinas e Urias Magalhães (sedes do time em Goiânia) e crianças influenciadas pelo crescimento do clube, sendo que entre jovens e adultos a torcida do Atlético ainda é incomparável com a do Vila Nova e do Goiás. Brigas envolvendo torcedores do Atlético são raríssimas, e é normal em clássicos vermos torcedores do Goiás ou do Vila sentados entre atleticanos, sendo inadmissível o contrário.
Nos anos 1990 a maior rivalidade do futebol goiano era Vila Nova e Goiás. O primeiro oscila nas séries B e C do futebol brasileiro desde essa época. Problemas financeiros levaram o Atlético Goianiense à seguir o Goiânia rumo à decadência. Em 2001, falido, o Atlético teve seu estádio (localizado em área valorizada) demolido para a construção de um shopping. O time estava na segunda divisão do Campeonato Goiano, até que um grupo de torcedores e a diretoria embargaram a obra, reconstruíram o estádio e retornaram à divisão principal do campeonato goiano em 2006, chegando ao vice-campeonato. Depois 19 anos, o time se sagrou campeão goiano, teve duas boas atuações na série C do Campeonato Brasileiro e subiu duas divisões seguidamente, deixando para trás atualmente o Vila Nova e o Goiás, este rebaixado à série B do Campeonato Brasileiro em 2010.
A ascensão meteórica do Atlético tem como maior crítico o jornalista Juca Kfouri (ESPN/Uol), que chama o clube de "time de político" e que "seria bom se o Atlético rebaixasse da série A logo em 2010", afirmando que o Atlético é sustentado por dinheiro público desviado. O presidente Valdivino de Oliveira, Secretário da Fazenda do Distrito Federal, era homem de confiança do Governo Joaquim Roriz. Ao mesmo tempo, Valdivino era vice-prefeito de Goiânia, sendo o prefeito o atleticano Iris Rezende. De tão influente nos negócios do DF, mudou-se o governo e Valdivino continuou Secretário. O seguinte govenador do DF foi José Roberto Arruda, que foi preso e renunciou posteriormente devido ao mensalão do DEM. Nessa época, Valdivino de Oliveira deixou o cargo e uma das empresas envolvidas na corrupção era patrocinadora do Atlético (LinkNet). A ligação que se faz era de que Valdivino facilitava negócios de empresas em Brasília desde que fosse repassado algum dinheiro ao Atlético. Quanto, como e para onde o dinheiro ia, nada foi revelado até hoje. O presidente do time é atualmente Deputado Federal eleito por Goiás (PSDB). Se um dia for confirmado qualquer tipo de ilegalidade nos negócios do Atlético ou de qualquer outro clube, que os deuses do futebol ajam a fim de promover justiça, uma "lei de ação e reação", "aqui se faz, aqui se paga", a exemplo do que já aconteceu com o Atlético Mineiro ou como a que o Corinthians tem sofrido atualmente, com a desclassificação na almejada Libertadores para o Tolima (Colômbia), em que o marketing do Ronaldo foi desnudado pelo pífio futebol do time. Quanto à crítica de Juca Kfouri, que ele tenha olhos também não somente para o Atlético, mas para todos os clubes de futebol do Brasil, já que endividamento e prática de caixa 2 são quase que universais.
O futebol do interior goiano geralmente é subsidiado por prefeituras e corriqueiramente sofre crises ou mesmo extinção de clubes, sem falar dos tradicionais calotes em jogadores. CRAC (Catalão) e Anapolina (Anápolis) são os clubes mais 'estáveis'. Na Capital, o Goiânia está há anos na 2ª divisão e o Monte Cristo é um clube famoso pelas sucessivas derrotas que acumula.
O desenrolar do futebol goiano neste 2011 é uma incógnita. Haverá uma rivalidade extrema entre Vila Nova e Goiás na série B. Vila Nova não tem demonstrado até agora estrutura e futebol para subir à série A este ano, mas já será satisfatório para torcedores colorados que o Goiás também não consiga o acesso. O Goiás também tem um time mediano e tem que ter o mesmo cuidado que o Vila Nova nesta série B, a fim de evitar o risco de rebaixamento à série C. Atlético tentará firmar-se na série A e com o elenco que possui lutará novamente para não ser rebaixado.

Sobre este escudo, o Vila Nova segue a tendência de cores alternativas dos clubes brasileiros, e escolheu o laranja para seu 3º uniforme, lançado em 2010.

2 comentários:

  1. Uma vitória digna de tabu, um segundo gol espírita, de qualquer forma, há de se reafirmar que a torcida do Vila sempre dará uma força à risível torcida atleticana, sempre incentivando o time rubro-negro quando esse adentra o gramado. É preciso reconhecer o apoio da massa do Vila ao time atleticano antes das partidas.

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  2. Muito bom o texto. Sou do Paraná, mas simpatizo desde criança, não sei pq, com o Goiânia e com o Goiás. Tanto que jogava com o Goiás nos torneios de futebol de botão com meus amigos. Já o Goiânia era sonho de criança ter em minha coleção. Uma vez cheguei a dsenhar a mão 10 simbolos para colar nos botões. Hoje tenho um time do Goiânia que peguei no blog Joga Bonito e que é um dos meus favoritos. Parabéns pelo blog. Abraço!!!

    www.meustimesdebotao.blogspot.com

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