quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Meu craque de mentira



Texto da revista ESPN n. 11 – setembro/2010:

"Uma transferência agitou o futebol uruguaio na janela europeia. Por € 3 milhões, o Danubio vendeu a revelação Néstor “Colibri” Coratella ao Villareal, negociação amplamente divulgada pela imprensa espanhola. Tudo perfeito, não fosse um detalhe: Coratella não existe. Foi inventado por um grupo de internautas. Uma história similar à de Masal Bugduv, a revelação moldava de 16 anos, pretendida pelo Arsenal, que foi parar em uma lista de jogadores que poderiam explodir em 2009 sem nunca ter existido. A partir das duas histórias, montamos um roteiro de como criar um jogador e ainda fazê-Io virar notícia.

Quanto mais jovem, melhor: jogadores de categorias de base geralmente fogem do radar da imprensa, ainda mais se forem de clubes periféricos. É mais aceitável achar pouca informação sobre um garoto de 18 anos.

Dê uma vida virtual ao craque: o Google é a principal fonte de pesquisa da imprensa. Um perfil na Wikipédia com um resumo da carreira e um número chamativo atende ao anseio por informações. Uma página no Facebook dá um lado mais humano ao personagem. Criar um fã-clube virtual serve como atestado de qualidade.

Ação viral: perfis virtuais são importantes, mas o boca a boca faz a diferença. O The Times engoliu a existência de Bugduv porque havia várias informações sobre ele. Seus criadores espalharam notícias falsamente creditadas à agência AP sobre o interesse de clubes ingleses no adolescente. Logo as reportagens foram replicadas
por blogs, depois sites especializados, até chegarem ao jornal inglês.

Seja verossímil: em que é mais fácil acreditar: um moldavo de 16 anos na mira do Arsenal ou contratado para o envelhecido Milan? Um jovem uruguaio a caminho do mediano Villarreal ou do galáctico Real Madrid? Casar o perfil do jogador com o do clube torna a história mais digerível.

Efeito São Tomé: tudo que havia sobre Bugduv eram menções em sites e blogs. Os uruguaios responsáveis por Colibri usaram imagens aleatórias captadas na internet para montar um vídeo com gols do atacante. E postaram o material no You Tube.

Converse com seus fãs: quando a imprensa espanhola passou a noticiar sua “venda” ao Villarreal, Coratella usou o Facebook para confirmar o negócio. “Aconteceu a maior chance da minha vida. Depois de longa negociação, aceitei uma oferta irrecusável. Vou para o Villarreal”, escreveu.

Mantenha o fairplay: assim que o jornal uruguaio Observa revelou que Colibri não existia, seus criadores manifestaram-se no Facebook: “Fomos pegos. Excelente artigo. Tiramos o chapéu para vocês”. O perfil de Bugduv no Wikipédia passou a contar a farsa assim que ela foi descoberta. O mesmo espírito esportivo não se viu nos veículos que engoliram a história e depois varreram a barrigada para debaixo do tapete."

“Quem dera pudéssemos ter vendido um jogador nesse valor”,
Arthur Dei Campo, presidente do Danubio.

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